biografia

Conte-me a história da rapariga madrepérola. Vem de si o sono, a alfazema da cama deixada pelo rasto de outro pijama; cheira-me a pérolas pequenas levadas nas orelhas para que melhor se possa ouvir o canto marítimo que nos prende os pés à areia. Sem sereias, só de homens recebemos pérolas e eu, mãe, levarei as suas, que lhas deu seu pai, no dia em que a mãe me disser: - é o mais importante. O sono fecha-se entre mim e si, as vértebras deslocadas das suas costas, a que aconchego o meu peito de nove anos. Um laço que me faz ver de olhos fechados, ostras de madrepérola guardando pérolas, segredos ditos às costas de pai e da mãe. Temo ter dormido todo o tempo com que nasci nas suas costas, mãe. E agora, sem tempo, como adormecerei sem o gosto platinado do mar a despontar-me nas raízes dos dentes?

Uso ao peito a medalha dos anjos que a sua avó lhe deu, quem mais a amou e quem a mãe não soube amar. Gosto que tenham gostado de si. Uso-a; e quem a olha diz-me que está correcto que a use, mesmo sem que saibam o porquê. Pedem-me uma biografia e digo-o dentro de mim: a minha biografia é o meu nome, tudo o resto são pausas, virgulações que informam a banalidade congénita de ter nascido. A simplificação absoluta de uma história mora na certeza de pai e mãe, avôs e demais família. Ancêde Barboza da Fonseca Hierro Lopes, e nem mais. Nem menos. Guardo três mulheres ao peito, o amor da minha bisavó pela minha mãe e o da minha mãe pela minha avó, algumas tragédias e três mortes de pai, filho e irmão, só em Ancêde, de acento circunflexo, erro orgulhoso, mas de um orgulho que vem de antes dos Ancêdes e cresce com os Artayetts. Barboza da Fonseca, porque há muitos Barbozas e muitos Fonsecas mas, Barboza da Fonseca só nós e o velho decorador que fez fortuna onde ninguém sabia que a havia. Hierro e Lopes, de Sevilha a Badajoz, de Elvas ao Porto; e o cansaço que há nisto de se contar a história. Bastar-me-iam flores. Mas chega de notas: basta isto e sem datas: o nome completo.

Saberia dar nome aos gatos vadios da rua, se a mãe tivesse mais cedo deixado que um entrasse em casa. Hoje, ao entrar em sua casa, mãe, o meu quarto a descoberto, a nudez mais cruel dos objectos, a marca na alcatifa dos pés de uma cama que mais longe não existirá. Amei nela dois homens. Razão pela qual jurei, a esta nova, amar apenas um. A minha obsessão pela derradeira atenção. Pela perfeição. O que faz com que agora me espreguice ao longo do seu peito refrescado pelo algodão e embalado por bolinhas azuis e brancas, sem companhia além das mulheres dos quadros e de uma ou outra jura de amor-perfeito. Dessem-me mais tempo e teria construído a perfeição. Enquanto olho dois sacos de alfazema moída juntos pelo laço que colocava debaixo da minha almofada e da que me acompanhava. Queria escrever na letra mais pequena que as minhas mãos pudessem fazer, desaparecer na poeira do grafite e afundar-me no interior das linhas separadas por fios azuis idênticos aos das piscinas: nunca soube nadar. A mãe nadava e eu, agarrada aos seus ombros, nadava. Fazíamos castelos de areia junto ao quebra-mar quando a terra era redonda e a vida se estendia à distância do nascimento de todas as marés até à silhueta do navio que, lá longe, em mar alto, trazia alimento aos nossos olhos habituados a salgar.

Conte-me história da rapariga madrepérola, mãe. E evite o fim em que eu sou ela. Faça-me crer que não. Não sou madrepérola nem pérolas para um dia mais importante. Só a que ouve tantas vezes que sabe de cor a história de cada alga como de cada veia.

Só não me perca os dentes de leite, tire a medalha dos anjos ou diga que sim: nunca mais dormirei.

Minta-me, mãe, nas pequenas coisas: faça-me querer que talvez deus não o seja somente em ausência. Que há falhas remendadas por agulhas de tricô e que o meu coração é tão grande que cabe lá dentro todo o nome que me deu. Mas por favor, não me chame mais meu amor.

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