jardins

Esta manhã morreu um rapaz. O facto de ter sido na rua em que vivo é totalmente arbitrário. Morreu aqui como poderia ter morrido em qualquer outra rua reduzida ao estatuto de espaço público. O nome negligenciado, a rua só espaço e o rapaz só rapaz. Sou de mágoas selectivas, de tristeza elitista, embora não saiba explicar a que metodologia se subjuga a dor. Cruzámo-nos com o carro da polícia, que espera ordem judicial para levantar o corpo, – será autopsiado?, não o vi prostrado, imagino que estivesse caído com a cabeça pendendo na berma da estrada, temos pouca terra para tanto corpo, não se podem chorar todas as mãos de uma rua, – do que terá morrido?, decerto o abrirão, a costura em forma de ípsilon, como se vê nos filmes. Antes disso, o sangue por coagular no interior do peito, abrindo a cor sem nunca se deixar verter, – e se tivéssemos no peito aberto um jardim de flores coronárias? Papoilas, a mais cardíaca das flores, a giesta pulmonar, fiteiras fazendo a vez de veias; e há quem tenha nenúfares, talvez, violetas no lugar de giestas; é pena que não saibamos que jardim escondemos por detrás da pele.
Tudo me leva a crer nos médicos tanto como nos jardineiros, podando as videiras mais doentes que tornam o vinho em alimento dos mortos. Aqui, conta-me o meu pai, já não chegaram a tempo. – Que tipo de corpo teria o morto?, penso, enquanto mudam de cor os semáforos; ontem, falando de mortos, amiga disse-me que dois amigos se tinham matado na linha do comboio. Se os visse tentando parar o comboio provavelmente nada diria. Que cedo me ensinaram a não me meter em vida alheia.
Na minha rua não há árvores. É encruzilhada de onde espreita o sótão onde durmo; e ei-la aqui, com nome de planta. Talvez haja debaixo das pedras, dos meus pés ou do lugar onde o rapaz morto respirou pela última vez, um rio subterrâneo alimentado a heras, tão verde que mate de vida as árvores que terão existido; aquelas que um dia baptizaram os passeios.
Procuro no jornal notícia do rapaz. Sou selectiva e não o chorarei, por o não haver conhecido, mesmo que, sem querer, lhe escreva agora só para dizer que sei, que sei que morreu; uma contradição que apenas pode ser explicada pelo meu afecto às flores secas, que, aprendi com o meu avô, são as que deram mais cheiro aos dias. E, se me chega de longe, o cheiro de uma vida cumprida isso basta-me para enfrentar a noite.

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