avulso

Discordo de quem diz que o mundo se refaz de manhã, quando o sol se ergue e devolve o nome aos objectos. São quase cinco horas da tarde e, da minha secretária, vejo a luz batendo-se contra o reposteiro cor de chá; ao filtrá-la dar-lhe-á o tom sépia que me agrada nesta hora de passagem, paragem, o sol encolhendo-se no rebordo quase dourado do meu quadro de naufrágio; o cadeirão azul prestando-lhe descanso; a mesa de jogo calando-se, e o chão cor de tijolo secando-se, esquecido da água de alfazema com que lhe lavei o rosto.

Encho o balde na banheira, onde a água sai mais quente, quatro medidas de alfazema chegam para tingir de inverno o vapor; passo lentamente o pano húmido pela cara da casa, que estremece ao acordar, só o sol ao secá-la a alimenta. Faço-o todos os sábados. Os móveis são os gestos menos silenciosos desta casa, palradores, só ao fim da tarde é possível encerá-los.

A minha casa sótão tem o rosto e a inquietude das crianças; talvez o sejam assim todas as casas sótãos que espreitam as ruas, na medida da distância dos ombros dos prédios, ou do céu, quando à noite os barcos rumam para dentro da sala, deixando vazias as molduras, e o chão de tijolo sem ser da terra para ser ancoradouro numa das bocas do mar.

“Huma oliveira e um bocado de terra no citio que chamam de vinha da Rainha: parte do norte com Maria Angélica da Amieira e dos mais ventos com a casa”, transcrevo de um testamento. A mim ninguém me deixará uma oliveira: a que a minha mãe iria herdar foi cortada pelo caseiro da Casa do Bagulho para fazer uma corte de porcos. Há dois séculos delineava-se a dimensão da casa através dos ventos e, na minha imaginação, parece-me que cada casa era um mapa do mundo, seguido pelo sopro dos quatro ventos. Trato da contabilidade de deus ao resumir o que ficou de cada vinculo testamentário; coloco-a em ordem, que o cálculo dos mortos há muito que se arrasta por gerações e gerações de nomes perdidos; terei, no fim, matéria para duas ou três notas de rodapé, um preciosismo a que só os mais cismados ligarão. Dou conta dos pormenores e, se nasci, foi para fechar contas a ossos.

Ofício estranho, o que levo, numa mistura de casas moribundas e defuntos que, longe na terra, não terão indecisões testamentárias; gostaria de ser um pouco mais do que isto, uma vida de escritório virada para a morte, nenhum dos meus clientes se queixará da minha falta de sigilo profissional se, um dia, narrar a história das suas ossadas. O número de mortos a que assisto é desmesuradamente superior ao dos vivos. Não me incomoda que o seja, embora eu não pertença aos que dizem ter nascido no tempo errado.

Na generalidade, o tempo em que vivo serve-me de entretenimento: apreciar as contrariedades, as irregularidades da terra — nunca me convencerão sobre o seu aspecto arredondado: a terra, como a conheço, é tão cúbica como os quebra-cabeças que me davam para me estimularem o cérebro — tomar parte para, no instante seguinte, deixar vazio o lugar na carruagem.

Se fui revolucionária foi só por algumas semanas; não o tivesse sido e faltar-me-iam, na memória, as reuniões na cave de um café cheio de comunistas, bloquistas e gente sem título social, ou a visão de uma ou duas praças cheias, num país em que só as flores se rebelam. Couberam-me em missão duas tarefas: a de dar folhas brancas à multidão e a de dar música; a segunda, malograda, foi vítima de problemas técnicos irresolúveis — irónico: a geração da alta tecnologia impedida de dar música à sua tentativa de revolução — mas, poderei sempre defender-me: da lista escolhida, Zeca Afonso fora devidamente esquecido. Ninguém que me conhecesse poderia esperar que eu não o esquecesse.

Foi a única vez que tive país. Fora isso, sou tão apátrida como alguns dos meus antepassados. Tão pouco política que, na política, o meu único papel seria o de agitadora, por me dar às vezes vontade de bater com os pés contra a terra. Criança irrequieta, mal saberia comportar-me nos funerais dos homens que investigo.

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