Encontrara, à hora certa, no lugar certo, o outro nome do medo. Parara por segundos, ao olhá-lo. Na distância milimétrica que o impedia de contagiar a sola dos seus sapatos pretos. Via-o: esgotado. Preso entre as pedras da calçada, exausto, esperava a chegada de outra gota que tornasse o transbordo irreversível.
Ladeado pelo negrume sonante da pedra cortada, recebia de braços abertos a chuva. Eram miligramas de angústia em pó, que se dissolviam num perpétuo choro: aquele que cruza ruas: une estradas, findando-se debaixo dos pés anónimos que o enterram, na busca incerta do melhor trajecto. Fogem da chuva, os homens. Fogem: olhando de frente o horizonte enevoado, tomando por certo, os edifícios fantasma; gigantes que os observam através da fenda do sonho. Impondo guarda-chuvas – contra-tempos – indiferentes ao medo que chora debaixo dos seus cabelos. Ele sentia-o. Pressionado pela velocidade que o tornava invisível.
À sua frente, espectros de outras moradas: a mulher velha que por Ele passara, agarrada ao lenço que lhe cobria a fragilidade dos cabelos, deixara cair uma gota: cheia de cinza e pêlo de gato, semente de ausência; não levava nada que a resguardasse da chuva, com a excepção das mãos sardentas e ossudas que amarravam o negro, contra o queixo. Atrás dela, outro homem a seguia – sem seguir, seguia somente, como o que segue o caminho protegido – com um chapéu carregado de lágrimas. De rosto preso ao lado inferior do céu. Fraco de força para encarar a altura da rua que o esperava, era lento; o sobretudo verde-escuro pingava, decretando o vazamento da vida. Aproveitavam o tecto dos andaimes, túnel de segurança provisória, semeando pelo chão as partes da alma que se iam descolando da roupa. Alimentando, as partículas de pó. Garantindo que crescia saudável – medo sem medo.
Temor é terra silenciosa que preenche o vazio das pedras. Sedento, odeia o método impermeável com que é negligenciado. Esfomeado, é magro como os negros – aqueles que morrem em segundos contabilizados – sobrevive, indigente, roubando à indiferença: as gotas de suor, de tristeza, das mulheres sem chapéu e dos homens sem lenço.
Ele vira-o. Segundos antes de tocar o medo: oásis de água suja, encarcerada, no lugar que uma pedra abandonou. Deu-lhe a gota que levava escondida na gabardine azul-escura. Matando-lhe a fome, perguntou-lhe como se chamava. Ouviu-o com toda atenção. A voz era doce. Anotou o outro nome do medo na memória mais fiel que possuía. Abandonando-o de seguida: longe dos andaimes, percorria o ventre mais alargado da estrada caiada de branco intermitente.
Na algibeira escondia o nome do medo, pensando, que talvez, fosse essa a origem oculta dos nomes: o nome do nome que é dado a um medo.