Movia-se vagarosamente, abrindo caminho por entre as fendas das portadas. As janelas (semi-círculos) da cozinha, ainda adormecidas, embalavam no intervalo entre o vidro e a madeira, o despertar melancólico da luz. Como uma espécie de toque. Gerado a partir das pontas dos dedos. Os quais, ao percorrerem a geometria daquela casa, sussurravam ao ouvido das portas o nome do mês que crescia entre as suas mãos de cobre, estilhaçado.
Sentada sobre a mesa, segurava entre os dedos a caneca de café quente, enquanto observava o chão de tijoleira vermelha, iluminado pelo nascer do dia. Parecia-lhe que o chão se abria, revelando a natureza onírica de um vulcão adormecido. Entregue aos seus pensamentos, espreitava a infância por cima do seu ombro esquerdo, ao olhar o fim da escadaria que levava à cozinha. Havia anos que não voltava àquele ponto entre o fim da noite e o início da manhã. Da casa vazia restavam, tão-somente, as memórias que Ela cultivara em segredo; as mesmas que germinavam, silenciosas, protegidas pelas traves de madeira.
Lembrava-se do princípio: quando os seus pés pequenos ainda não tocavam o chão, revia-se sentada no mesmo lugar: outrora, com um copo de leite frio nas mãos, esperando que os mais velhos se acabassem de vestir. Quando os via no fim da escadaria, saltava, pondo o chapéu azul claro na cabeça, colocando-se junto à porta, sorrindo ao homem que a acompanharia na caça às borboletas. Caçava-se. Borboletas ou pássaros: caçava-se sempre naquela casa. Fosse com uma rede ou com uma espingarda. Havia qualquer coisa que fundamentalmente os impelia: a caça.
Com a caneca vazia de café, procurava uma razão. Algo que lhe explicasse o motivo pelo qual desde sempre se caçara. Sabia que o princípio era a suma, o que os definia – o que a definia – em essência. Conhecia a sensação da espingarda sobre o ombro; o som do tiro, a excitação do olhar preso à queda de um pássaro ferido; ou a leveza com que a rede é levantada pela mão esquerda: os sentidos atentos ao voo; o passo calmo com que os Homens se aproximam delas, aprisionando-as em frascos vazios de compota.
Prendendo o olhar ao chão, observava o lado avesso da memória – a que lhe era mais próxima – recordando o seu corpo, deitado sobre uma cama, o beijo quase inaudível, intocável, que lhe tinha sido deixado sobre os lábios. Ouvia, meses depois, a porta a bater, acordando-a. Recordava-se do calor dessa manhã de Novembro, da silhueta mortífera do Sol que a contemplava na distância que se cria entre os pés da cama e a cabeceira.
Virara o corpo, observando a porta fechada. Fora-se. Deixara o cheiro a alfazema dos lençóis. O mesmo que se entranhara na pele dela. A porta pintada de branco encerrara-se; ela sabia, que haveria dias em que se abriria outra vez para, pouco tempo depois, se voltar a fechar. Acreditava que esse seria o som rítmico da vida: dos anos que ainda estariam por nascer.
Via-O voltar, na opacidade de uma noite sem estrelas; regressava de passo seguro, esquivando-se entre os escombros das derrocadas passadas. Na algibeira levava promessas, palavras velhas numa boca nova. Transfigurava-se a fisionomia. Conhecera-O na diferença dos corpos: os que se abrem loiros, os que se fecham morenos, os que se entre olham ruivos. Conhecera-os a todos. Nomes, vários, apelidos comuns ou inesperados. Gostos divergentes ou equivalentes. Misturava-lhes a identidade. Entre os homens que corriam sobre o seu corpo, a memória unia-os no denominador comum: eram Homem sem nome.
Trocava-lhes o rosto, recriando, à sombra, o perfil nostálgico daqueles que na sua infância caçavam. Sem saber em que momento, Ela deixara de ser igual a eles, para se metamorfosear num pássaro. Ou numa borboleta.
Ao tocar com os pés no gigante vulcânico, sentira a lava consumir-lhe as raízes dos pés, unido no peito o fogo que a consumia com a luminosidade antiga de uma manhã. Junto a ele, ao seu peito, guardava as manhãs dos dias, embalando-as entre os dedos; julgando-se una com a Casa. Vazia memória da casa, aquela que os pássaros e, um dia, as borboletas, também abandonariam.









