A vida assenta-me mal. Uma coisa fora de época que só serve para ferir o meu gosto estético pela ausência. Desta forma de silêncio, não vinculativo, advêm os gestos que fazem de mim parte da plateia. Em palco, uma rapariga em camisa de dormir, conta, sonâmbula, o número de contas de vidro que completam o seu sonho. Sobre o que sonha ninguém sabe, e do silêncio só chegam os números que sussurra perto das mãos, como se as mãos tivessem ouvidos e a língua fosse apenas um movimento quase imperceptível de lábios sonolentos.

Durante a espera outros dormem; uma plateia adormecida, hipnotizada pelo sono de uma rapariga. Crio-lhe mentalmente histórias diferentes, todas elas falsas, embora lhe reconheça no rosto uma das miúdas que vi, quando fui visitar um amigo ao hospício. Era diferente, contava pétalas de camélia seca. Andava descalça, os pés enlameados exigiam da enfermeira de serviço cuidados atentos. Os loucos são pouco higiénicos. O asseio do corpo é-lhes tão distante como a lembrança do próprio corpo.

Por vezes tocam-se e, ao fazê-lo, descobrem que trazem mais valas do que qualquer morto: trazem na pele espaço suficiente para morrerem todas as mortes que lhes crescem no peito. Diz-se da morte que é uma semente que habita na boca do estômago quando nascemos; e que daí cresce até qualquer outra parte do corpo de que morreremos. Os loucos são canteiros de flores dispersas, vivendo da morte em doses medicinais, o que lhes permite multiplicar a colheita. O que me dá vontade de perguntar: Como vai o teu jardim?

No palco, a actriz que finge loucura desfigura-se, balbucia gritos; do seu rosto não há mais vestígio da rapariga de pés sujos que inventei só para dar corpo à acção. Levanta-se e, de olhos muito abertos, declama um monólogo pouco sério; baba-se propositadamente. Pensa-se dos loucos a incoerência do discurso aliada a um qualquer problema salivar. Não sabem que os loucos são sérios. A plateia acorda com as palavras e, contudo, não me parece ainda haver maior silêncio do que no eco daquelas frases. Fala-se muito, discursa-se estando calado. Nada do que diz faz sentido. A loucura, que é a melhor maneira de estar calado, leva a um raciocínio paralelo à realidade. A lógica dos tolinhos é tão criativa, que dificilmente haverá maior arte do que a de se ser louco, disse-me uma vez um amigo que acreditava ser um narciso sedento de haxixe, heroína e gin tónico.

Que uma flor, quando bem nutrida, cresce demais. E pode transformar-se num rosto húmido de raízes finas e escuras, cabelos de bolbo expatriado, vendido em lojas de sementes que lhe asseguram sepultura ao venderem-nas juntamente com um vaso de terra holandesa.

A namorada acredita ser tulipa negra, Rainha da Noite, chamam-lhe; embora me tenha parecido mais tulipa doente mesclada de vermelho e branco. Tenho um casal de amigos que são flores e caminham como flores; é fácil vê-los, ao cruzarem as ruas receosos que o vento lhes roube as pétalas ainda por crescerem. Escrevem o seu próprio herbário com base na experiência que têm da manipulação genética do tempo; agrada-lhes o exotismo por ser raro, e não há droga nova que não tenham experimentado.

Se lhes pergunto que espécie de flor sou, dizem-me que não, não sou flor, antes jardineiro e que é meu dever podar-lhes as folhas para que outras possam nascer. Faço-lhes isso, ao visitá-los nos hospícios. Não serão árvores que morram de pé, de galhos fortes e raízes profundas: antes flores a que um inverno mais rigoroso asfixiará de geada. Um dia terei para mim canteiros brancos de flores petrificadas. Estátuas de vitalidade proscrita.

A actriz, que já não fala, baba-se um pouco e simula gestos obscenos, é daquelas plantas de plástico que as famílias deixam sobre os túmulos que saberão esquecer. Interessa-me, por me interessar a longevidade, a independência com que me livra dos meus cuidados de jardineiro. E quero-lhe tão bem quanto aos meus amigos flores; aos meus amigos barcos, veleiros de coração apertado contra o vento; e aos meus amigos que, desconhecendo as regras dos herbários ou a trajectória do vento, se limitam às mãos. Companhias de barro, quietos, são construções de silêncio que só à noite despertam, moldando-se a si próprios, movendo-se, baixando-se para melhor terminarem os veios dos pés ou das pernas, para, de manhã, ao acordarem, me dizerem: Vês? Sou a minha melhor criação. Enquanto me perguntam, rindo:

- Como vão os teus canteiros?